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DO RIO GRANDE DO SUL AO PANTANAL SOBRE DUAS RODAS
Sou Daniel Goulartt, do Moto Grupo Servage da Estrada-RS, sócio fundador e Secretário Geral da AMO-RS (Associação dos Motociclistas do Rio Grande do Sul), no mundo do motociclismo sou conhecido como Texano, Servajão e Osoriense. Atualmente moro em Porto Alegre, mas toda a minha infância e adolescência vivi na cidade de Osório-RS. Desde os doze anos de idade ando de moto e curto o motociclismo de uma forma geral. Minhas motos: 1º Mobilete 50cc, Dream-Honda.100cc, Virago 250cc-Yamaha, Hoje tenho a Shadow, rodei com ela, 48.000km, totalizando com as outras motos em 78.000km. Sempre fui aficcionado em viajar de moto e mais ainda uma viagem longa. O meu maior numero de km rodados em viagem era de 1500, por motivos sentimentais surgiu a oportunidade de ir para o Mato Grosso do Sul, tudo começou quando fui trabalhar em Camburiu-SC (1998) conheci Lorena, Sônia e Larissa que faleceu em março de 2002. A gente vinha mantendo contato por cartas e até que a Sônia mãe das meninas me ligou e informou da tragédia acontecida com sua filha Larissa. Após contato feito em outubro de 2002, decidi que iria visitá-las em Campo Grande, convidei minha namorada (Rochele) e um amigo que estava em Camburiu na ocasião que conhecemos Lorena, Sônia e Larissa. Começamos então nos prepararmos para a viagem, contei com o apoio da Chele (Rochele), dos meus companheiros do Moto Grupo, Turbo Moto Concessionária-Honda e contei também com o apoio da minha família,ah, não poderia deixar de falar do Ribeiro-Lages-SC, nos conhecemos em um evento motociclistico em Timbó-SC, voltamos a nos ver em Termas do Gravatal-SC, a partir daí trovamos diversos e-mail's e correspondências com dicas de pilotagem e tudo mais a respeito do motociclismo (incluindo os relatos da viagem que ele fez sozinho para o nordeste - 13.000 km em 1 mês). Dias antes da minha partida, minha família não queria que eu fosse para tão longe, eles não acreditavam muito na possibilidade de eu ir sozinho, mas foi o que aconteceu, e eles na última hora antes da minha saída foram fundamentais para eu poder manter a tranqüilidade durante a viagem. Muitos me chamavam de “doido”, e eu dizia que quando se faz alguma coisa que realmente você gosta, vale todo o empenho, dedicação e até mesmo o trabalho que se passa ao realizar algo que te dá prazer. Faltando cinco dias para a saída a Rochele foi assaltada, tendo assim o seu abalo emocional e financeiro afetados, com este acontecido ela acabou sendo impedida de participar da aventura; restava eu e o Márcio, mas na véspera da viagem o Márcio desistiu de tudo. Eu como tinha organizado o roteiro e estudado os mapas “de cabo a rabo” praticamente sozinho, decidi ir “sólito”. Para não dizer que fui sozinho para uma aventura ao desconhecido, ao meu lado, o tempo todo, esteve Deus e a minha companheira Shadow com seus escapamentos abertos voltados para cima. Eu sempre tive vontade de pegar uma estrada longa com a Shadow, pois ela fantástica, surpreendente, e é deliciosa de pilotar.
25/12/2002
Dia da saída. Passei a noite de Natal um pouco com minha família em Osório e outro pouco em Máquine com a família da minha namorada. O sentimento de que a Chele pudesse ir comigo era demais, tanto que fiquei em Maquine até as 15:00, a despedida foi dolorosa, mas tenho a sorte de ter a Chele do meu lado, que é uma namorada fantástica...teria eu que passar em Rondinha (próximo a Torres-RS) para a despedida de um companheiro Servage (Nerso), foi muito bom a conversa com ele, me tranqüilizou para poder pegar a estrada numa boa, e que boa porque a ansiedade era tanta que não via hora de iniciar esta aventura. A saída aconteceu as 17:00. Botei para andar tão empolgado que só parei para abastecer quando a moto já estava na reserva — isto foi em Tubarão-SC, no Posto Osório. Neste posto conheci um casal de cariocas, o homem é da AMO-RJ e tem uma Shadow. A noite começou a chegar e eu continuava andando na BR-101, passando Florianópolis comecei a pensar num lugar para dormir. Camburiú-SC - Hotel Camburiú (R$ 25,00 - com chorinho).
26/12/2002
Acordei 6:30, dia lindo, organizei as coisas no quarto para colocar na moto logo após do Cafezão da manhã. As 8:00 peguei a estrada(BR-101) em direção ao estado do Paraná, eram 11:00 estacionei num posto que costeava Curitiba-PR-na rodovia BR-277, ai tive que tomar um café bem quente, pois a temperatura começava a baixar desde que comecei a subir a serra para Curitiba. Rumei para o almoço em Ponta Grossa, ai começaram os pedágios um em cima do outro (1,70 , 2,40 , 2,70 e mais). A tarde começou a esquentar, Subi a Serra do Cadeado (P. Grossa até Mauá da Serra-PR, pela BR-376) dá mais ou menos uns 200km de serra com curvas em cima de curvas, uma delicia de andar. Chegando em Mauá da Serra eu parei no posto da Policia Estadual para saber qual o melhor caminho para atravessar o rio Paranapanema e chegar no Estado de São Paulo, me surpreendi com a receptividade dos policiais, fizeram um mapinha para mim com distâncias e todas as cidades por onde eu deveria passar... Segui viagem, passei por Londrina-PR, ai em diante peguei umas estradas só com vegetação ao meu redor, botei para andar, atravessei o estado do Paraná quando eram 18:30, o destino agora era Presidente Prudente-SP, onde eu dormiria. OK 21:30 estava hospedado no Nosso Hotel (R$ 23,00), próximo ao centro da cidade. Descarreguei a Shadow, tomei um banho acompanhado de algumas baratas, liguei para minha família, namorada e Nerso, este amigo motociclista foi o que mais me manteve tranqüilo com suas brincadeiras por telefone. Tinindo de fome peguei a moto e fui no centro da cidade comer alguma coisa, estacionei junto a uma V-Max e outra Shadow, entrei no bar e fiz meu pedido (bife aparmeggiana bem grande com arroz, molho e uns aperitivos de entrada-bebida dois sucos de limão), importante ressaltar que esta foi à noite que comi mais bem e mais caro de toda a viagem, total de R$15,00. Ah, os caras das motos citadas não fizeram nenhum esforço em me cumprimentar, só olharam para mim e viram que eu era Gaúcho, pois estava com a camiseta dos Servage (pintada por meu irmão), e nela tem a bandeira do nosso Estado e a do nosso Pais. Bom era 01:00 eu estava na cama...
27/12/2002
Acordei 07:00 fui tomar café da manhã no próprio hotel (Café + simples da viagem), carreguei a moto, passei na revenda Honda que tinha ao lado do Hotel, engraxei a corrente, calibrei os pneus e fui dar uma conhecida na cidade, fui no centro comprar filme para a máquina fotográfica, fui na estação ferroviária onde encontrei um Gaúcho que trabalhava ali perto, trocamos uma idéia, ele só me assustou dizendo que eu iria pegar só estrada ruim até Campo Grande-MS, dei uma passada pelo Shopping de Presidente Prudente, tirei uma foto e ai peguei a estrada novamente(SP-270), já eram 10:15 da manhã, um horário um pouco tardio para um motociclista pegar a estrada, ah, mas paciência eu não sei quando vou voltar a uma das maiores cidades do Estado de São Paulo, o negócio é aproveitar! Na estrada passei por um complexo de penitenciárias fantástico, parecia de filme, era na cidade de Presidente Wenceslau. Botei pra andar, eram subidas e descidas que não acabavam mais e por volta das 13hs (horário de Brasília) eu estava me aproximando de fazer a travessia tão esperada para o estado do Mato Grosso do Sul, e o melhor de tudo que esta travessia seria feita por cima de uma ponte sobre o Rio Paraná (2km e 550 metros de ponte). No momento da travessia fiquei emocionado e eu acho que minha Shadow também ficou, pois parecia que ela tinha pedido para mim dar um acelerão, e foi o que fiz, levantei o giro lá em cima e me arrepiei. Bom, pegando a estrada novamente agora já no Estado do Mato Grosso do Sul (1º cidade que passei-Bataguassu-MS), o calor começou a ficar intenso e até então eu só tinha viajado de jaqueta de couro, botas (tipo de peão com o bico quadrado) e calça de breem. Não agüentei e encostei no primeiro posto daquela “nova rodovia” -não era muito nova no sentido de asfalto, mas dava para rodar, era só contar com a sorte e se cuidar dos inesperados buracos que de vez em quando apareciam sem avisar.No posto fui direto abastecer a “motoca” pois ela estava de gargalo quase seco(reserva acionada), depois fui no banheiro e fui cumprimentado por um senhor que me perguntou, “sê ta indo pra onde?”, eu respondi “to indo pra Campo Grande (325km de onde nós estávamos) e em seguida perguntei e você pra onde vai? Ele disse tenho um frete em Cuiabá-MT(850km de onde estávamos), começamos a conversar e ele disse que me viu encostado em um posto lá em Curitiba, ontem pela manhã, este posto foi onde passei para tomar o café, perguntei qual era seu caminhão, ele disse é aquele Trovão Azul carregado de óleo vegetal, eu na hora me lembrei daquele caminhão encostado ao lado da moto lá em Curitiba, mas eu não lembrava dele. O caminhoneiro tinha dormido em Ourinhos-SP(sua terra), após a conversa pegamos a estrada, ele já tinha almoçado no posto e eu não estava com fome. OBS: neste primeiro posto do MS notei que eu estava errado, meu horário estava errado, no MS não tem horário de verão, então a hora era a do meu relógio menos uma, depois que fiquei sabendo fiquei faceiro, assim poderia rodar sem preocupação e sem muita pressa em chegar antes do anoitecer no destino. A estrada que rodávamos agora era BR-267, era deserta em se tratando de população, uma vez ou outra se via os boiadeiros guiando seus gados no meio daqueles terrenos argilosos, parecia um barro vermelho, dava pra ver também os animais (cotia, tamanduá bandeira, capivara, tatu, etc.) que estavam mortos à beira da estrada, devido aos choques e atropelamentos que aconteciam com os veículos, alguns desses animais eu parei pra ver e registrar em minha máquina fotográfica. Seguindo a viagem, com o asfalto muito quente eu fazia para descontrair dos cumprimentos com os caminhoneiros um passa tempo,através de um sinal de luz, piscando o pisca, levantando a mão esquerda e mais as várias ultrapassagens que eu e meu amigo Trovão Azul fazíamos um ao outro, até eu parar devido a uma placa e a gente não se ver mais, esta placa estava no acostamento da rodovia escorada em outra placa de sinalização, era uma placa de automóvel das antigas e bem velha, parecia estar ali fazer anos, peguei-a e amarrei na moto e daí segui em diante. O calor era imenso, os braços estavam torrando (vermelhos) quando parei no que seria a última abastecida antes de chegar em Campo Grande (faltava 180km), este posto era o mais servage dos postos, um areião só, parecia de faroeste, ou melhor, parecia do Texas (um dia eu chego lá). Botei pra andar com vontade depois da saída do posto, mas logo o calor me pegou de jeito (segundo os primeiros habitantes que lá no Mato Grosso do Sul conversei, eles informaram-me que lá fazia em média 42,43 graus centígrados, só que lá no MS tem a diferença de o calor não ser úmido feito ao daqui do Sul, lá não se fica tão suado quanto aqui). Faltando 50km para Campo Grande eu encostei e devorei um Tampico quase totalmente congelado (suco natural de frutas), conforme ia me aproximando a chuva ia também ficando cada vez mais próximo de mim, até que ela chegou pra me abençoar, o procedimento era não colocar a roupa de chuva, só coloquei a jaqueta de couro e tomei aquele “caldo”, mas foi gratificante de Deus. Fui entrando dentro da cidade com muita chuva, baixei bem a velocidade até encontrar um lugar seguro para comunicar a minha chegada para as pessoas que me esperavam (Sônia e Lorena), isto eram 16:30hs (levei dois dias para chegar, km: 1690km, real do veloc.). Encostei em frente ao Estádio de futebol do maior clube do MS,o Comercial-MS, junto com o estádio tinha a UFMS- Universidade Federal do MS.O motivo da viagem foi pra pegar a estrada e levar nossos sentimentos até lá, pois em Abril de 2003, Lorena e Sônia vão trocar o nosso Brasil pelos Estados Unidos da América! Voltando para minha chegada, a Sônia veio ao meu encontro, ela não acreditou que era eu e que eu tinha andado tantos km de moto, mas era eu de carne e osso, fui seguindo ela na sua Biz 100cc até sua casa, chegando lá encontrei minha amiga Lorena, tiramos foto da inédita chegada e fomos descarregar a Shadow, imediatamente arrumaram o local pra eu ficar e tomar um banho porque eu estava um legitimo Servage da Motocicleta. Só sai do banho estava um baita de um cafezão com várias opções para eu desatrasar meu almoço, ohh beleza! Elas estavam querendo saber o que eu queria conhecer (apesar de eu ter que dia 30/12 ter que pegar a estrada, nós tínhamos dois dias para ver alguns lugares legais), então programamos o dia seguinte, iríamos para Bonito-Paraíso Ecológico com cachoeiras, cavernas, passeios de botes nas corredeiras, etc(300km de Campo Grande), para não dormirmos muito tarde fomos conhecer um pouco da cidade à noite, achei bacana o Parque dos Poderes, onde funciona o Foro, Receita Federal, OAB, Justiça do Trabalho, Tribunal de Justiça, enfim tudo relacionado ao poder público e ao judiciário, o interessante que estes órgãos citados são localizados em umas áreas totalmente Verdes, arborizadas e com muitos animais nos campos que circundam o Parque dos Poderes. Fomos dormir 00:30.
28/12/2002
Acordamos 8:00, cafezão reforçado foi o próximo passo, fui trocar o óleo da Shadow que tava quase na hora de trocar, eu resolvi prevenir e trocar àquela hora, pois não sabia se iria achar outra Revenda Honda (Covel Michelin) tão fácil. O combinado para ir para Bonito-MS era irmos eu, Lorena, Sonia, Uma amiga da mãe da Lorena que é de São Paulo e estava passando um tempo(férias) em Campo Grande, o nome dela é Cida e sua filha Letícia. Pegamos a estrada às 10:00, estava fazendo muito calor, todos queriam andar de moto, primeiro a Lorena veio na garupa mas não agüentou muito, a Sônia queria pilotar na estrada minha moto, então eu fui na garupa e ela pilotou até a fiscalização policial que nos parou para pedir documentação e a CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Andamos mais um pouco e pararmos em uma lanchonete na estrada, próximo a cidade de Aquidauana-MS, todos nós tomamos liquido pois realmente era muito calor (uns 43º C). Voltamos para a estrada fervente, já tínhamos rodado uns 200km, estando bem próxima do destino, era para estar a Leticia (filha de oito anos da Cida) na carona da moto, mas como a Leiticia estava comendo picolé ela disse pra mãe dela ir primeiro. Depois de meia hora na estrada depois da saída da lanchonete, saindo de uma curva(naquela estrada as curvas eram todas bem abertas, tinha muita reta na estrada) entrei numa reta andei uns 400 metros quando de repente senti um desequilíbrio na moto, mas que nada era o encosto Easy Rider que tinha quebrado e Cida que estava na carona tinha caído naquele asfalto abrasivo, na hora que olhei no espelho retrovisor vi ela rolando ,não acreditei, Sônia que vinha logo atrás de carro desviou e encostou e foi na direção da Cida, eu encostei imediatamente e fui tirando e atirando o capacete no mato e corri até ela, parecia um pesadelo. Cida estava se levantando quando eu e Sônia estávamos chegando, abraçamo-la, que estava toda esfolada e com um corte muito profundo no cotovelo, Cida chegou a desmaiar por segundos, mas ela foi forte e pediu logo que a levantássemos, eu tremia feito vara verde, fui buscar o carro, colocamos Cida dentro do carro, e ninguém parava pra ajudar(passou uns dois carros), neste tempo a Lorena ficou no carro pra acalmar Letícia que chorava muito e gritava o nome da mãe. Rumaram para o hospital de Aquidauana, uns 35km dali, disseram pra eu colocar o encosto da moto no carro, mas eu disse que não e falei para elas tocarem para o hospital, fui até o encosto que estava no meio da estrada, peguei-o e toquei no meio do mato, ficando ele no meio do Pantanal. O caminho até a moto parecia longo, uma eternidade, pois na minha cabeça passaram-se mil coisas ruins. Chegamos quase juntos no hospital, Cida já tinha ido para o interior do hospital, a aflição era grande pra saber da avaliação do médico, ela teria quebrado um dedo do pé e teve uns 60% do seu corpo queimado pelo asfalto. Pelo final da tarde, depois de ela ter acordado, eu pedi pra conversar com ela, entrei no quarto, ela estava consciente, e disse pra eu me acalmar e não me culpar pelo acontecido, mas eu me sentia culpado pelo fato de ela estar na minha moto, Cida me tranqüilizou um pouco com suas palavras, fez até uma brincadeira (pediu que eu levantasse a parte do lençol que cobria sua mão, e disse: “ta vendo este anel, tinha uma pedrinha de diamante nele, o acidente foi tão feio que ele ficou na estrada, e ela concluiu, Daniel não era a minha hora, graças a Deus eu tenho muita coisa boa pra fazer aqui na terra”. Com a chegada dos seus familiares(Dona Fátima e seu sobrinho Artur, namorado da Lorena, mais o irmão da Cida), conversamos e eles tomaram a frente da situação, pois tinham que decidir onde a Cida iria fazer a cirurgia no cotovelo(ali mesmo no hospital ou em Campo Grande). Já era noite quando voltamos para Campo Grande, Cida ainda teria que ficar dois dias em observação em Aquidauana.O dia foi muito agitado, só que não só fisicamente mas muito mais foi mexido com o emocional de todos que estavam envolvidos naquele acidente. Eu estava praticamente decidido em voltar no dia seguinte para o Sul, mas depois de escutar os conselhos da mãe da Lorena e botar a cabeça no travesseiro, decidi de vez em ficar como era o previsto, assim poderia acompanhar mais próximo o estado de saúde da Cida. Rochele minha namorada foi a única pessoas para quem contei, pois só ela acreditaria no que eu contara, caso contrario iriam pensar que eu tivesse me acidentado também, isto eu falo em relação a minha familia.
29/12/2002
Acordei umas 9:00, tomamos café, e logo ligamos pra saber da Cida, ela estava na observação ainda devido à cirurgia do cotovelo, ficaria até amanha no hospital. Saímos para almoçar como já era de “praxe”, a Sônia não era adepta a uma cozinha, mas o misto quente(torrada) dela era muito gostoso. Pela tarde fomos no Shopping arrumar o filme da máquina fotográfica, ganhei uma camiseta da Lorena e da Sônia e ao sairmos do Shopping fomos para o Parque das Nações Indígenas - PORTAL KAIOWÁ, localizado no centro da cidade, neste parque tem de tudo, pessoas caminhando, animais no meio da mata(tamanduá bandeira, capivara,etc), tem um lago para se sentar à beira e tomar um tereré (bebida típica de lá e também dos gringos argentinos), dizem eles que mata a sede, o tereré é feito em um copo, dentro vai erva, e este copo é abastecido de suco ou água bem gelada. Vai entender este mundo? Saindo do Parque das Nações Indígenas ao entardecer, passamos pelo ponto mais movimentado de Campo Grande (Avenida Afonso Pena), é uma avenida larguíssima, onde o pessoal se reúne com seus carros e motos, colocam todo tipo de música e se divertem ali mesmo, pois tem um monte daquelas carrocinhas ambulantes que vendem de tudo pra comer e beber. Chegando em casa já era noite, procuramos saber noticia da Cida, ela estava em Aquidauana ainda. Com o final da minha estadia acabando, fui aprontar minhas bagagens para o dia seguinte voltar para casa. Tinha decidido voltar por outro caminho depois de ter conversado com dois gaúchos que lá encontrei, eu tentaria encurtar tempo e distância não passando pelo Estado de São Paulo e sim saindo direto no Paraná, próximo a Cascavel. Fui dormir perto da 0:00.
30/12/2002
Na noite anterior, matei parte das saudades da namorada Chele, que infelizmente não pode me acompnhar, mas ficou torcendo para que eu consiga meus objetivos, como sou grato, e via telefone, combinamos que ela me acordaria por telefone. No horário marcado ela ligou e me acordei, mas havia esquecido do fuso horário, e como era muito cedo, dei uma dormidinha e se não fosse a mãe da Lorena eu não acordaria tão cedo, ela foi me chamar as 5:10, voei da cama para o banheiro, a mesa do café já estava postada, me abasteci, armei as bagagens sobre o banco, pois agora teria de me virar sem bagageiro (as bagagens que não eram poucas eu fui colocando em ordem de tamanho em cima do banco traseiro da moto, este banco é pequeno, então coloquei as bagagens maiores em baixo para Ter uma base boa, o ponto positivo das bagagens no banco traseiro foi que elas serviram de encosto para mim),. Rumei a rodovia BR163. Eram 6:15 estava pegando a estrada com a moto abastecida, tava uma delicia de rodar, sem movimento e uma temperatura agradável. Ao invés de continuar na BR163 e ir em direção a São Paulo, eu entrei em um trevo que indicava a cidade de dourados-MS, passando pela cidade de Dourados-MS, notei um trânsito tranqüilo, parei para comprar lembranças para Chele e sua mãe e mais uma para a minha mãe; confesso que encontrei certa dificuldade em escolher os presentes, pois tinham que ser todos presentes pequenos por eu não Ter alforjes na moto e se quer Ter espaço para mais bagagens. Continuei rodando até a hora do meio dia, encostei num posto para abastecer a moto e eu, tinha percorrido 450km na manhã, estava bem próximo da divisa MS com PR(uns 200km). Iria eu até Guaira-MS para sair em Cascavel-PR, mas antes avistei uma placa indicando divisa MS com PR, então segui nesta Segunda opção-passei pela cidade de Naviraí, e rumei para a divisa dos estados já citados, no caminho presenciei um caminhão de boi que tombou devido à dormida do motorista na direção, mas nada grave. Cruzei os estados em torno de 14:30. Eu tinha conhecimento dos riscos de andar sozinho, só pode contar consigo próprio, a experiência e com a ajuda de Deus. Estava notando que a medida que trafegava, os buracos eram maiores e mais seguidos, de tal forma que redobrei a atenção, e diminui a aceleração. Alguns, eu conseguia desviar, mas outros eram inevitáveis, devido eles serem muito próximos uns dos outros, e na verdade eram buracos dentro de buracos, e fui um destes que desviei, balançando a moto para o lado, entretanto o buraco seguinte, já com a moto deitada, não foi possível desviar, sob pena da moto cair por falta de equilíbrio, então aconteceu o imprevisto, tive que passar por dentro de um buraco, que mais parecia um panelão de fazer polenta em festa de igreja no interior do RGS. Parei imediatamente o resultado foi, os espelhos retrovisores se desenroscaram vindo parar quase no meu peito, trincou a bolha que eu teria colocado dois dias antes da saída para a aventura, um beiço na roda dianteira se formou e deu a impressão de que meu pneu teria furado, graças a DEUS não furou, eu estava no meio do nada ali só acariciando aquele querido pneu, passou-se uns 20 minutos depois da revisão feita na moto, voltei para estrada, quer dizer eu já estava na estrada, pois não tinha nem acostamento naquela terrível estrada, andei 40km até encontrar a cidade de Umurauama-PR (na velocidade de uns 60km/h para prevenir um acidente), fui no borracheiro do posto de gasolina, expliquei o caso pra ele, resolvemos murchar umas cinco libras do pneu dianteiro para não ter perigo de estourar com o calor do asfalto e não mexemos no beiço da roda. Fiquei mais tranqüilo, abasteci a moto, conversei com o dono do posto que era caminhoneiro, ele me ensinou o caminho a ser feito para tentar chegar em Ponta Grossa ainda hoje. A estrada continuou ruim até mais ou menos uns 35km, a partir daí deu pra andar, mas eu estava ressabiado com aquele pneu dianteiro, passei pela cidade de Cianorte-PR, onde na beira da estrada tinha aquelas tendas de frutas, sucos, caldo de cana e cachaça, encostei, estava com sono, tomei um suco de melão e dormi um sono atras da parada de ônibus, era umas 18:15 quando passei por Maringá-PR, cidade que tem mais quebra-molas(lombadas) que já vi na minha vida (uns 30, na extensão de três ou 4km). Tava querendo se por o sol quando eu estava passando por Apucarana-PR, eu estava muito cansado e já vi que não daria para chegar em Ponta Grossa, então comecei a pensar num lugar para dormir, rodei até as 21:00, no total de 800km no dia, cheguei em Mauá da Serra-PR e fui para o Hotel que não lembro o nome (era bem simples, R$15,00), fui num restaurante que ficava em frente à rodovia e perguntei se faziam comida, a moça me disse que sim e explicou os pratos: P.F(prato feito)-R$3,50, Mini Comercial-R$5,00 e o Comercial-R$6,00, pedi um Mini Comercial, veio tanta comida que mesmo com a fome que eu estava, não consegui dar conta, veio pedaços de frango, um bife grande e mal passado do jeito que gosto, arroz, feijão, mexido com batata, bastante salada, ovo frito, tava 10. Fui dormir de “pança cheia”.
31/12/2002
Acordei 5:15, tomei um café com leite, era o que oferecia o cardápio, arrumei pela última vez as tralhas(bagagens) no ano de 2002 e o meu destino era Terra de Areia-RS(sanga funda), onde a família da Rochele e ela passariam o Ano Novo, e eu também. O dia tava bom, comecei descendo 200km da Serra do Cadeado, um enxame de marimbondo explodiu na bolha da moto e um entrou pela manga da jaqueta e me picou no cotovelo, que dor, fui obrigado a parar e esmagar aquele filho da mãe. A estrada estava pedindo para ser rodada e eu botei pra andar com o pensamento na estrada que estava em boas condições e pensando no final da aventura juntamente com o final do ano de 2002, comecei a me recordar a cada km dos bons momentos que havia passado, pensei na Chele, nossos planos, meu trabalho na minha família, amigos e pensava também o que esperava poder realizar o ano vindouro. Passei todos os pedágios do Paraná, no inicio da tarde tava começando a descer a serra de Curitiba, almocei um pratão de massa em São José dos Pinhais-PR, encostei em Camburiú-SC eram 14:30, encontrei neste posto dos Cowboys do Asfalto-Posto BR, um cara que vinha de Caçador-SC, oeste catarinense, em uma CBR1000cc, trocamos umas idéias, perguntei pra ele o que ele achava do meu novo problema, que recém havia detectado, dois prego no pneu traseiro da Shadow, pois eu estava indo ao borracheiro de novo, mas pior que o cara lidava com recapagem de pneus e disse para eu ficar tranqüilo que o máximo que poderia acontecer era esvaziar um pouco, assim não precisaria mexer naqueles pregos, ufa! Agora estava perto de casa, estrada já era mais familiar, chegando perto de Floripa-SC passei por um amigo motociclista, era o "Capaceti" do M.C Gaviões da Serra-São Marcos-RS e Lages-SC. Chegando no Rio Grande do Sul, senti um alivio e muita felicidade de papel cumprido, a aventura estava chegando ao final, era ali em Torres-RS desabou o temporal, parei botei roupa de chuva e vim me refrescando com aquela chuva abençoada por DEUS! 20:45 cheguei na minha nega Véia, tava com uma saudadeira danada de todos, neste dia foram percorridos 920km. O bom filho a casa retorna, e a frase que gosto de citar é a de que os tolos aprendem com a experiência alheia e os sábios aprendem com sua própria experiência.
Resultados da Aventura
TOTAL DE KM: 4000 km
TOTAL DE DIAS: 6 Dias e meio
PERDAS E VITÓRIAS: Perdi 1 jaqueta dos Servage, 1 capacete Pinico, 1 encosto para garupa, em compensação ganhei amigos, conheci lugares fantásticos, rodei muito chão, e o que mais me preocupou, o acidente com Cida foi superado e hoje 30 dias depois do acontecido, venho mantendo contato com ela que já está em São Paulo, caminhando e com muita vontade de viver ao lado de sua filha Letícia.
Nesta aventura ao MS, sofri, aprendi, fiquei um pouco mais experiente para fazer outra viagem longa, agora com mais sensatez, calma e paciência, ainda, rompi o cordão umbilical, de que em viagem longa somente deve ser feita com mais motociclistas, o que não é verdade. Nós, motociclistas, quando cortamos este cordão, tiramos o véu do medo, colocamos o véu da prudência, do bom senso, da tranqüilidade, da paz, da responsabilidade. Creio que isto é o fator de grande e elevado mérito para quem deseja continuar no hobby de motociclista.
Daniel Goulartt "Texano"
E-mail: servagetexano@terra.com.br
Fone: (51)9944-0999
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